A polícia prendeu nesta segunda-feira (15) o coronel
Alexandre Fontenelle Ribeiro de Oliveira, terceiro homem na hierarquia
da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Ele é acusado de liderar uma
quadrilha de policiais que praticava extorsões no bairro de Bangu.
Responsável por comandar tropas de elite do Rio, Fontenelle ganhava um
salário mensal de R$ 32.251,41 brutos - R$ 17.107,29 líquidos. O valor é
maior do que é o que pago ao governador do estado, Luiz Fernando de
Souza, o Pezão, que recebe mensalmente R$ 21.968,14 brutos e R$
16.330,43 líquidos.
Segundo as investigações do Ministério Público do
Rio (MPRJ) e da Secretaria de Segurança (Seseg), o esquema criminoso
funcionava dentro do 14º Batalhão de Polícia Militar (BPM), em Bangu, e
envolveu todos os quadros do quartel, dos oficiais do Estado Maior aos
praças. Três pessoas estão foragidas e 22 foram presas, denunciadas pela
promotoria por formação de quadrilha armada. Também foram cumpridos 53
mandados de busca e apreensão.
As investigações sobre a quadrilha já estavam em
curso em agosto de 2013, quando o coronel e o major Carlos Alexandre de
Jesus Lucas, também detido nesta segunda, assumiram, respectivamente, os
cargos de comandante e subcomandante do Comando de Operações Especiais
(COE) da PM, ao qual estão subordinadas as tropas de elite da PM.
Com o coronel, que foi destituído do cargo e preso
em casa, no Leme (zona sul), foram encontrados extratos bancários com
valores elevados incompatíveis com a renda (mais de R$ 30 mil brutos), a
contabilidade da quadrilha, e bilhetes com as cotas dos integrantes de
quadrilha. O MPRJ anunciou que investigará o patrimônio do coronel.
Coronel foi preso nesta segunda-feira (Foto: Ag. O Globo)
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Integrantes
da cúpula do 14º BPM, também foram presos os majores Nilton João dos
Prazeres Neto e Edson Alexandre Pinto de Góes, além dos capitães Rodrigo
Leitão da Silva e Walter Colchone Netto. Para o MPRJ, o envolvimento de
toda a hierarquia do quartel reflete a “institucionalização da
corrupção”. Na casa do major Edson foram apreendidos R$ 287 mil, segundo
o MPRJ.
O capitão Colchone já havia sido preso em 2013,
durante operação contra a máfia de caça níqueis e estava lotado
administrativamente no setor de Inteligência do COE sob comando do
coronel Fontenelle. “Isso nos ajudou a reforçar o vínculo entre eles”,
afirmou o subsecretário de Inteligência da Seseg, Fábio Galvão. Durante
as investigações, de 2012 a 2013, foi possível verificar que a quadrilha
já agia no 41º BPM (Irajá, zona norte), onde os oficiais acusados de
chefiarem o grupo estavam lotados anteriormente, e manteve o modo de
atuação quando houve a transferência para Bangu.
O Ministério Público ainda não sabe desde quando a
quadrilha atuava nem os valores arrecadados mensalmente. O esquema
funcionava como uma empresa. Em vez de coibir a circulação de veículos
irregulares e a venda de produtos piratas, os praças se aproveitavam da
situação ilegal para exigir propinas de mototaxistas a transportadoras
de cargas que circulavam em Bangu. Os valores variavam de R$ 10 a R$ 2,6
mil e eram cobrados em periodicidades variadas, diretamente das
empresas. Depois, o dinheiro era repassado para a “administração”, a
chamada a cúpula do quartel.
Eram dois modelos de arrecadação, de acordo com o
promotor Cláudio Caio Costa: a “escravidão”, em que os praças ficavam
com a maior parte da arrecadação e a “administração” recebia um
porcentual de produtividade. No esquema de “valor fixo”, a quantidade de
dinheiro repassada para a cúpula era previamente estabelecida e o
excedente, dividido entre os praças. “Havia uma organização empresarial
(no quartel), tanto que o nome da operação é 'Amigos S/A' porque existia
uma presidência (coronel Fontenelle), a diretoria dessa sociedade
anônima (os cinco oficiais) e a equipe de vendas, que eram os praças”,
disse o promotor.
Os envolvidos responderão na Justiça Militar por
cada uma das concussões (extorsões praticadas por servidores públicos),
apuradas às centenas pela promotoria. Também responderão na Justiça
comum por formação de quadrilha armada (pena máxima de seis anos) e
serão investigados por lavagem de dinheiro. O Ministério Público pedirá
indenização por danos morais à imagem do Estado do Rio e da PM.
